7 dias, 7 projetos, 1000 caminhos, 1 desafio... e o Clown
Um trabalho da vida inteira
Esta arte não deverá ser a minha, mas decidi tocar-lhe ao de leve, prestando a devida homenagem a todos os palhaços que por aí conheço. Não, não estou a ser nem irónica, nem sarcástica, nem tão pouco a fazer uso incorreto de metáforas, conheço mesmo uns quantos Clowns e tive o privilégio de passar uma semana inteira (ou metade, se a pensarmos apenas no "turno da manhã") com belíssimas pessoas. Vou contar-vos esta história, e este projeto (ou estes projetos). Para fazê-lo devo, no entanto, alertar-vos primeiro: a dureza deste texto e das palavras que nele serão empregues muito se devem à necessidade de dar ao publico leitor o mesmo agridoce do que é ser palhaço de profissão. Por aí, apresentam-se já as mais respeitosas e honestas desculpas por incómodos de maior que possam magoar os artistas mais completos e bonitos que o mundo nos oferece (é para eles este pedido de desculpas...)
Quando era miúda detestava os palhaços (começo em grande). Bom, sejamos honestos! A realidade é que sabemos que o público se divide entre os que adoram "ir ao circo" para ver e ouvir aberrações e os que adoram ser o circo em si, qual aberração... Enfim, eu não apreciava os palhaços. Lembrando-me de poucas coisas acerca da infância (os psicólogos respondem a isso), mas lembro-me do horror que era ter de ir ao circo! Sim... ter de ir ao circo! Era tipo o programa da tarde nas vésperas de Natal quando se crescia criança em Lisboa (gente, o povo sabe queixar-se não?!). Lembro-me de ficar a observar com muita atenção os seus números atabalhoados e cheios de erros. Pensava "porque é que alguém quer que se riam de si? Porque é que isso deverá ser divertido se ele acabou de tropeçar nos seus próprios sapatos de palhaço, coitado, nem sequer acertou no número. Qual será o número que calça? E qual será o número daqueles sapatos? Serão pesados? São feitos de quê? (sim, imensa atenção ao número dos palhaços, confesso..). Tinha muita pena dos palhaços, na realidade, muito embora só tenha percebido anos mais tarde (tipo, "agora") que todos nós deveríamos reconhecer imensamente esta profissão COMO UMA PROFISSÃO e não como um falhanço, como uma coisa inacabada ou algo de gente estranha que lê livros, faz teatro porque não era bom a matemática, a português, a línguas nem tão pouco a desenho… é um resto esquecido por parte do mundo como se não fôssemos todos (todos, sem exceção) um palhaço per se.
Estive uma semana na Casa do Coreto - Lua Cheia, em Lisboa, a descobrir "A Arte do palhaço", com a grande Fanny Giraud (FR). Aqueles de vós que se cruzaram comigo essa semana viram caras (ainda mais) expressivas e hiperativas do que aquelas a que já se foram habituando (lembrar aquela pessoa que me dizia pela altura do COVID-19 "Não faça essa cara que eu já a conheço pelos olhos!"). Ora pois… se todo o meu corpo sabe falar. E (raios) tanto que ele falou nessa semana e nessa Casa do Coreto. Novamente assumi (ainda que inadvertidamente) o lugar de observar. Não por desdém, sem dúvida por uma curiosidade gigantesca em perceber o outro, em poder vê-lo. Perceber parte do seu desconforto humanizava alguma coisa em mim… alguma coisa desconfortável dentro de mim. Acredito que, como psicóloga, esse "incómodo" seria fruto de uma empatia vivida e partilhada, como se ali os nossos seres ganhassem superpoderes e todos ficássemos extremamente expostos e extremamente vulneráveis. Façam este exercício: vão para os vossos trabalhos (ou pensem neles). Como vão vestidos, como falam entre colegas, como falam com os diretores, com os técnicos… Com quem almoçam. Se preferem beber café sozinhos, se não almoçam porque estão sempre com os prazos atrasados. Se não almoçam porque houve uma emergência… Se vos interessa saber das emergências dos outros! Agora retirem todas essas máscaras. Retirem-nas. Retirem-nas e percam a vossa matriz de identidade. Percam o padrão. Percam o estatuto do cargo. Percam o sentido. E por momentos, apenas por momentos, tornem-se tontos! Tornem-se palhaços! Andem à velocidade a que o vosso corpo se quer mexer (hiper-rápido, slowmotion…), falem como se os lábios colassem entre si e fosse difícil desprendê-los. Abram imensamente a boca, e espreguicem-se muito! Cocem os olhos, e a cabeça…. Desarrumem-se deixando os outros desarrumados! Já imaginaram?? Como seria? Como poderia ser?
É deveras difícil estar exposto. Ser exposto. Imaginem… Imaginem, que saem à rua, para pedir ajuda, para dizer que é difícil. Para chorar o que não podem ter. Imaginem (na loucura) uma casa que não existe… «Era uma casa, muito engraçada… não tinha tecto, não tinha nada…». Imaginem-se ali, neste palco da vossa vida. Imaginem haver aqueles de nós que "vão ao circo" ver os palhaços, vão ver e ouvir aberrações. Imaginem… imaginem que se riem de vocês? Que vos agridem (vamos dizer, com ligeireza) com tomates 🍅🍅Vamos imaginar um lugar, onde o palhaço é batido, onde o amor que ele traz às pessoas no lugar do riso, é simplesmente ridicularizado, exposto, maltratado, ferido…
A Saúde Mental está muitas vezes no lugar da palhaçada. Subvalorizada. Ridicularizada. Enlouquecida. Chicoteada. Mal-interpretada. Amaldiçoada e destinada aos pobres e empobrecidos. Aos que nada sabem sobre nada, perfeitos idiotas num mundo de intelecta inteligência.
Não há maus palhaços, nem palhaços maus… apenas palhaços.
O palhaço diz sempre que sim!
O palhaço encontra o que está dentro de si (cabeça, olhos, mãos, pés) e canaliza para o público.
O palhaço não faz piadas para ninguém. Ri-se de si próprio.
O palhaço, melhor, diverte-se consigo mesmo. Diverte-se "de si" mesmo.
O palhaço não sabe o que vai acontecer no palco, só sabe que será importante de ser ouvido.
Eu recebo tantos, tantos que não são ouvidos fora dali. São sensíveis, muito bonitos, tão genuínos e tantas vezes tão, tão magoados. E ainda assim, oferecem o mundo ao Mundo e não fariam de outro modo.
Apagam-se as luzes, saem de palco, lavam a cara e despem as roupas toscas. Põem calças de ganga mais simples, mas guardam em si o detalhe mais tosco que lhes lembra que o seu palhaço é bom. Ou que, pelo menos, é bom ter um palhaço por perto, especialmente quando é nosso. Fecham os olhos e não querem estar sozinhos. Querem ser ouvidos sem serem apalhaçados, ridicularizados, enlouquecidos, chicoteados ou amaldiçoados. Trazem o amor no colo e a alma.
O que aconteceria, se por um dia, o mundo inteiro virasse palhaço, senão um perfeito ensaio sobre a cegueira...
NOTA: este pode ser o texto mais privado do pensamento livre: o meu palhaço, é aquele que é transparente, conseguimos saber perfeitamente o que está a pensar e a sentir. Conseguimos ver perfeitamente se está aborrecido, zangado, ou triste a valer, desapontado. O meu palhaço desespera porque é engraçado. E ele detesta ser engraçado. Ele só queria ser menos visto.
Curioso, não é? Ser menos visto… não é frase de palhaço.
Esta PROFISSÃO traz o sorriso em sítios que podem ser muito escuros, por vezes tão escuros como a nossa Saúde (ou Doença) Mental. Eles estão sempre lá, presentes, disponíveis, a chamar por nós. A dizer, olha o mundo com um sorriso nos lábios. Perdoa-o, e deixa-te rir! A minha homenagem hoje, vai para todas as pessoas bonitas que eu conheci naquela semana. E vai para todos os que conheço cá fora pessoalmente (os de profissão aqui elegidos e os da vida dos amigos). E um especial agradecimento à Nariguda por abrir as suas portas não só aos que se dedicam à arte de ser palhaço, mas a outros (como eu) que é só palhaça por acaso da vida. 😊
Obrigada à Fanny e a todos, todos os meus colegas (cujos trabalhos deixo abaixo referência), até àqueles que me acharam imensamente creepy 'cause she's just staring at us… Thank you all.
Esta página passa a ser igual espaço para dar voz estes projetos e trabalhos incríveis, e esperamos assim coser esta peça bonita que é uma "Manta de Retalhos" feita por todos.
Caminhar junto é caminhar ligado. Conecta-te!
Vamos lá! 🌻
