O que é emergente num processo terapêutico

07-07-2026

Quando fiz um vídeo (na minha ótica mais técnica) nada clean acerca do que pode ser uma perspetiva de proteção sobre a importância de cuidarmos de nós mesmos, pretendia apenas isso mesmo: sinalizar o cuidado perante um clima que se fazia demasiadamente exigente nos dias subsequentes (recorde-se, falando da semana passada) e para o qual várias autoridades deixavam dicas de proteção. Desafiei-me - ainda - à hipótese de neste modo espontâneo que Moreno nos oferece poder pensar um 3º vídeo, sem data e/ou tema definidos, que partiria de um interesse conjunto acerca do que pode ser importante abordar e pensar acerca do nosso bem estar psicológico. Este texto, é sobre isso, e sobre os caminhos que precisamos percorrer (quiçá) por tempo indeterminado, e nada urgente. 

Há cerca de 25 anos, iniciei o meu processo terapêutico indo, simplesmente. Não existiriam as redes sociais como as conhecemos hoje e - de todo - não existia esta ideia de "penso rápido", uma medida de apoio me dará todas as respostas em pouco tempo. 25 anos passados, eu deveria sentir o peso do desafio de "vos" motivar para este grande investimento que somos nós mesmos, através da psicologia, claro! Tudo fruto de um vídeo cuja palavra "viral" é, no meu dicionário, tão curta como 1000 visualizações (que, perceba-se, podem ser de escassos segundos e não do vídeo na sua totalidade). Afinal, não há tempo a perder! Precisamos de acompanhar todo o feed.  

A minha terapia iniciou-se porque me deparei com um conflito que notoriamente desencadeou outros cem que por ali existiam, bem mais urgentes de serem vistos e atentos. Na altura também não se "validavam" modelos terapêuticos: sentíamos algum mau estar, havia um descontentamento, uma rutura mais ou menos abrupta e, na intenção de nos redefinirmos no nosso meio pedíamos a referência de algum psicólogo ou psicóloga.  Íamos a uma primeira consulta sem muito a saber sobre a psicologia (dinâmica? sistémica? psicanalítica? cognitivo-comportamental? as intervenções podem/devem misturar-se?). Eles apenas respondiam "É isto: vai para aqui! Faz assim!..." e nós íamos, certos de que aquele técnico saberia o que melhor nos serviria terapeuticamente. Não conhecíamos imensos clínicos a trabalhar na área e a psicologia era - ainda mais - um tabu psiquiátrico, associado à loucura ou à inércia de sermos diferentes. Muitas vezes a acusação era "tão simples" como «tu é que...» ou «eu não sou maluco!». Parece distante não parece?...

Numa era agora imensamente rápida, a simples "brincadeira" de sinalizar «protejam-se do calor que se faz sentir» não é de todo suficientemente rápida ou interessante expostas todas as notícias que nos cercam: ao final do dia em que esse vídeo foi feito, existiam 2 frentes de incêndio em Portugal (Braga e Viseu), não sendo a notícia ou vídeo mais estrondoso sugerir que nos possamos defender o calor, a fim de fazer uma nova postagem sobre tema algum... E este um ponto muito relevante para o texto que hoje vos fica: na mesma data que eu faço esse vídeo, influencers inundam as redes (??) com outros dados relevantes: o que é FOMO, para onde caminhamos na urgência de saber muito (não sabendo realmente nada, ou muito pouco), - um tópico antigo - onde pára a nossa felicidade (Steve Cutts, 2017), Erasmus Sessions com a Udruga Amazonas (YMWB – Youth Mental Well-being), porque é que parte de nós insiste no muito rápido em vez da contemplação?.... e outros 100, 1000 ou 10.000 conforme nos apetecer! Não há limite! 

O Programa Cuida-te (Medida 2) do IPDJ está, agora disponível para que mais jovens possam manifestar-se acerca do que os importa, ao mesmo tempo de sinaliza e aponta para os riscos de não adotarmos hábitos de vida saudável. Sim... este (quase) jargão da nossa linguagem que nos fala sobre como é que devemos tomar as rédeas sobre nós mesmos: não fumes, não bebas, não te drogues, não tenhas relações sexuais desprotegidas, não fiques com alguém que não te cuida, que não te preza, sê cordial, não dês nas vistas, não ligues em demasia, não te apagues em excesso, não leias porque conspiram contra nós, lê as gordas e saberás tudo, não uses maquilhagem, apresenta-te como queres, pinta o cabelo, usa piercings, pinta o teu corpo, conta sempre a verdade... Sinto-me cansada. Muito mais cansada que há 25 anos atrás. E se ainda gosto (tanto) do meu espaço com a minha terapeuta. Paro no tempo e no espaço, desligo da pressa ou do vídeo (que nem me reconhece...), sento-me a ler... o livro, os outros em redor, ou eu própria. Como é que eu estou? E para onde é que aponta a "minha" felicidade?

Podemos candidatar-nos a um novo vídeo, a uma nova imagem, a um novo projeto que pense a saúde mental. Podemos fazer isto tudo! E podemos não fazer nada... Ficar (só) simplesmente aborrecidos com o dolce far niente e, crescendo a partir daí, aceitar que a ajuda psicoterapêutica segue caminho oposto ao da urgência e da resposta muito muito rápida de qualquer rede social. Fazer caminho terapêutico pode, muito bem, ser entender que a vida toda caminharei ligado a alguém que me vê na calma de poder partilhar um momento de relação a duas ou mais vozes, mas sempre em estreita ligação e respeito. 


Posto isto: Vamos Lá! Projetos a (querer) acontecer a partir de setembro: a música, o desenho, a dança, o corpo, a cerâmica, a escultura, o teatro, a escrita... Na Ângela Melo - Clínica de Psicologia e Psicoterapia só faremos juntos, convosco e em criação autêntica. porque caminhar junto é caminhar ligado. Mantemo-nos conectados! 


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